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O amor como construção da autonomia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.05.08

 

1984. O filme não está à altura do livro, mas como é que algum filme poderia estar ao nível de um livro de George Orwell, esse autor verdadeiramente genial, não apenas ao nível das ideias, mas também da qualidade da comunicação? E depois, são duas linguagens diferentes.

De qualquer modo, o filme aproxima-se muito dessa atmosfera asfixiante de uma sociedade totalitária, em que o indivíduo passa a ser um autómato, perfeitamente domesticado, obediente e serviçal.

Aqui o sexo é encorajado, como uma actividade mecânica e facilitadora de domesticação emocional. O amor enquanto encontro privilegiado entre duas pessoas, a cumplicidade, o afecto, é absolutamente proibido. Porque isso já é do domínio da autonomia individual, da construção de um espaço e de um tempo próprios. E seria perigoso para a ordem social.

Nunca como em 1984 o amor adquire esta dimensão de espaço de liberdade, de acto de insurreição e rebeldia, além de casulo protector de uma sociedade desumana, o último refúgio. Já Francesco Alberoni, em Enamoramento e Amor, considera-o como um verdadeiro acto revolucionário. George Orwell mostra-o em 1984.

Momentos do filme que mais me impressionaram:

A descoberta dessa magia inicial, a força dessa descoberta! Quando os dois se olham, não como qualquer um de tantos outros todos iguais, mas enquanto únicos!

Quando deixam cair os uniformes num gesto diferente de todos os outros gestos automatizados, esse gesto passa a ser mágico, absolutamente mágico!

E os encontros amorosos no mais absoluto secretismo, a forma absolutamente genial como aqui se revela a importância de um corpo de um outro que é único, que não pode ser outro.

A descoberta e o encontro amoroso como a possibilidade de rever (e reviver) a sua história pessoal, as memórias, as emoções, os afectos, adormecidos pela domesticação-condicionamento social.

Será que estamos assim tão longe desta domesticação social? 1984 está inquietantemente próximo. A sociedade prefere autómatos, consumidores passivos. Lida mal com gente verdadeiramente livre, que decide das suas vidas. Por isso está tão obcecada com o sexo. O que erradamente se olha como inovação e libertação é precisamente uma teia de actos condicionados.

Quanto ao amor, enquanto possibilidade de construir um espaço-tempo individual, autónomo, a sociedade não sabe lidar com isso. O amor como acto inicial, original, criativo, torna-se perigoso porque eleva as pessoas à sua condição de adultos autónomos.

A verdadeira autonomia surge a partir do momento em que uma pessoa constrói o seu espaço-tempo, a sua filosofia, os seus valores, o seu afecto primordial, com outra pessoa para quem é autónoma e única.

 

 

 

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publicado às 17:41

Voltar a casa

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.05.08

 

Clash By Night. A mulher procura a segurança de um amor confortável, de um ombro onde se apoiar. Somou desilusões e volta a casa, perto das docas, onde ainda vive o irmão.

Conhece dois homens, um, afável e protector, o outro, sensual e inquieto. Escolhe o homem afável e é com ele que decide viver. Surge a criança e a casa torna-se uma verdadeira “casa”.

Até aparecer de novo na sua vida o outro homem, e com ele, o desejo urgente e egoísta. O calor desses dias e dessas noites coincide com os dilemas da mulher.

Passeia ansiosa pela casa. Pelas divisões da casa. Nunca lhe ocorrera que iria perder a criança, que o pai da criança não iria abdicar dela.Hesita no último momento e é mesmo por um triz que consegue voltar atrás. E só porque o seu olhar se modifica. O desejo não é suficiente para dar um sentido à vida.

Nunca vi um rosto iluminar-se assim, como o da mulher quando volta “a casa”. Só por esse rosto da Barbara Stanwick vale a pena ver o filme.

 

 

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publicado às 18:45

Gattaca

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.05.08

 

O prolongamento da terrível lógica humana: a divisão das pessoas em dois mundos, baseada nas suas características genéticas.

A presença magnética de Gore Vidal, a dar uma certa ironia à inconsistência filosófica desta lógica geneticista da vida, em que a elites se definem pelo seu código genético.

A maravilhosa mistura do elegante design dos anos 30, a sobriedade das personagens, mesmo debaixo da maior pressão e dos maiores dilemas; a competição até à morte, dos dois irmãos…

E maravilhosa troca de identidades, que leva um humano normal, condenado a um lugar medíocre e serviçal, ao lugar do seu sonho, o seu verdadeiro lugar, para o qual se preparou toda a vida em silêncio.

É sempre possível passar as fronteiras que nos impõem. Mas é necessário utilizar a inteligência, a estratégia, a engenhosidade, a coragem e uma certa loucura e paixão… e estas… são características bem humanas!

 

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publicado às 14:42

The Trouble With Harry: de novo Hitchcock a animar os nossos dias! A começar pelas fabulosas cores outonais, em planos engraçadíssimos, como aquele logo no início: dois sapatos em grande plano, alguém que se aproxima, e a seguir vemos que os sapatos são do “nosso Harry” ali estendido, mesmo no meio da clareira, sobre as folhas outonais. A partir daqui é uma sequência delirante de cenas inesquecíveis:

A descoberta do Harry; as cores fabulosas de um Outono perfeito (para todos, menos para o Harry, claro!); as diversas personagens a tentar perceber qual teria sido o tiro fatal; as voltas que o pobre do Harry (que, pelos vistos, nem era boa pessoa…) deu com aquele grupo; as peripécias para o enterrar e desenterrar…

O pintor e a rapariga sensual quando se conhecem e se sentem atraídos; o pintor a aconselhar a mulher de meia idade a melhorar a sua imagem para seduzir o velho oficial da marinha; o miúdo com o coelho morto na mão a trocar novamente as contas aos tiros (feitas e refeitas pelo nosso grupo)…

As caminhadas das quatro personagens de perfil, recortadas na magnífica paisagem outonal; todos os diálogos, a dois ou a quatro; o desfecho inesperado e sortudo daquele mistério…

Hitchcock consegue aqui as suas personagens mais terrenas e pragmáticas, mais à escala humana e, por isso, também mais cómicas (mas esta, é claro, a minha opinião pessoal…)

Hitchcock maroto e brincalhão, como sempre! E que grupo de actores fabulosos, todos eles! Porque não terá tido John Forsythe mais papéis, personagens assim, que podia vestir tão bem? John Forsythe bem merecia ter tido outra visibilidade!

(Este filme de Hitchcock ainda o vi em 87, num dos ciclos de cinema do Gil Vicente, em Coimbra. Assim como The Rope e Vertigo…)

 

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publicado às 16:05


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